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A vida de Sundays

A vida de Sundays

O meu querido mês de Julho

Julho prometeu e cumpriu. Mais do que eu estava à espera, até. E nem sempre pelos melhores motivos. Quando nos habituamos ao "está tudo bem" e ao "vai-se indo", esquecemo-nos do quanto a vida é valiosa para ser vivida sem a sentirmos no seu esplendor. Viver em piloto automático é o maior inimigo da felicidade e às vezes só as curvas apertadas servem para percebermos que não podemos largar o motor e deixá-lo à deriva.

 

O mês que passou teve tanto de bom como de mau, e é difícil dividir sentimentos quando temos motivos para sorrir e para chorar. Talvez por isso e porque os acontecimentos se atropelaram num vaivém que não deu descanso, tenho parado pouco por aqui. Porque nunca senti tanto e porque nunca fui boa a digerir e a colocar em palavras o que vai cá dentro quando o que vai cá dentro é tão forte. Os meus avós celebraram este mês as suas bodas de ouro. O meu outro avô teve, também este mês, uma complicação de saúde que nos deixou com os nervos em franja. A celebração dos meus avós foi uma surpresa, com a família reunida numa festa íntima, sem grande pompa, sem ida à igreja, com uma cerimónia organizada por e para nós. Uma celebração cuja preparação durou meses. Não queriamos esquecer os convites, a ementa, o outfit, as alianças, a decoração, o vídeo com os melhores momentos de vida, as lembranças e o bolo de noiva. Tudo, tudinho, pensado e feito por filhos e netos. Um processo que teve tanto de cansativo como de gratificante. E com as borboletas na barriga a crescer a olhos vistos com o aproximar da data. O segredo e a ansiedade de fazer uma surpresa daquele tamanho aos meus avós, que merecem o mundo, conseguiram unir a família em torno de uma causa de uma forma sem precedentes.

 

A poucos dias da festa, o meu outro avô adoeceu. Não vale a pena entrar em pormenores até porque, aos poucos, as coisas vão-se compondo e, lentamente, vai melhorando. Mas ter uma notícia deste nível quando só temos motivos para sorrir é completamente devastador. "Não podia simplesmente continuar a correr tudo perfeitamente bem? As coisas tinham de ficar equilibradas da pior forma? Tinha mesmo de haver o oito do oitenta?". É desconcertante perceber da forma mais brusca que não temos o controlo sobre a nossa vida. Eu nunca fui dada a mimos e carinhos. Sempre corri o risco de ser mal compreendida, mas nunca fui o ideal de neta ou qualquer grau de parentesco que tenha. Não sou atenciosa e peco por ser mais ausente do que devia, não faço visitas frequentes, não vou "lanchar lá a casa" como tantas vezes me pedem, não dou abraços só porque sim e dificilmente me ouvem um "gosto de ti". Não tenho justificação para isto, em minha defesa só posso dizer que sou uma pessoa reservada e com muita dificuldade em mostrar sentimentos, mas nem isso justifica este "desligamento".

 

Ultimamente tenho mudado um bocadinho. Não tenho feito por isso, não, tem sido um processo natural do qual me tenho apercebido como espectadora atenta de mim mesma. Tenho percebido que talvez tenha sido egoísta ao pensar que tenho a vida mais banal do mundo. Não tenho. Tenho a sorte de ter, aos 24 anos de idade, os meus quatro avós comigo. Tenho uma família exemplar que não falha e sem a qual eu dificilmente seria o que sou. Tenho dois avós que acabaram de celebrar cinquenta anos de casamento. Caramba, será que algum dia vou conseguir amar alguém durante tanto tempo, de uma forma tão autêntica? Juro a pés juntos que nunca vi os meus avós a discutir, são as pessoas mais pacíficas e ternurentas que conheço. E naquele sábado solarengo, rodeada de família, depois de ver os meus avós trocarem alianças com o mesmo olhar apaixonado que sempre lhes conheci, caiu-me tudo. Não sei precisar o que senti, mas ali por meia dúzia de segundos, uma avalanche de sentimentos apoderou-se de mim. Chorei. Não sei se foi felicidade, se saudade de momentos como estes que sei que não se repetem e dos quais tenho tido a sorte de fazer parte. Se as epifanias existem, foi a minha vez de experimentar a sensação. Tudo fez sentido. O amor, a presença e o calor dos mais importantes, o valor da família. E a consciência de que haja o que houver e dê isto as voltas que der, não há nada mais importante do que isso.

 

Não há amor mais complicado do que este

Breve troca de sms com a minha irmã ou, por assim dizer, com a pita-com-a-mania-que-é-esperta cá de casa:

 

Pita: ads

Eu: o que é isso?

Pita: mds até metes nojo

Eu: mds? Isso é o quê? E porque é que estás a dizer isso?

Pita: ads = adeus, mds = meu deus. Toda a gente sabe isto.

Eu: toda a gente = todas as pitas, não toda a gente normal.

Pita: continua para aí a estudar e deixa-me.

 

Temos nove anos de diferença. Nove aninhos. Eu 23, ela 14. Não é como se tivéssemos um fosso intransponível entre nós mas também não é fácil sermos pessoas normais de cada vez que interagimos. A verdade é que com a minha irmã sou capaz do melhor e do pior. Partilhamos imensa coisa, gostos musicais, séries e filmes, somos capazes de passar uma tarde inteira nas compras ou no quarto a falar das coisas mais descabidas. E esse é o lado bom de ter uma irmã. É uma espécie de bolha actimel, o único sítio onde me posso refugiar quando me apetece chorar só porque sim, sem ser assaltada com perguntas. Deixo-me estar. E estar, só por estar, com ela, faz-me bem. Também é com ela que vou ter quando quero partilhar a piada mais recriminável de todas, aquela coisa estúpida sobre a qual me sinto a pior pessoa do mundo por estar a fazer piada mas que sei que ela vai rir tanto ou mais despudoradamente do que eu. E ri. E rimos as duas. Até doer a barriga e faltar o ar. E, acreditem, é a melhor coisa do mundo esta de termos alguém que é um bocadinho de nós no sangue e na alma. Depois há o lado negro, aquele que, por sermos tanto uma da outra, não conseguimos ser normais uma com a outra. É que se tiver de me chatear à séria com ela, não consigo não ser indelicada. Sou e de uma forma como não o sou com mais ninguém. Chamo-lhe nomes, grito e levo para troca, e cinco minutos depois já só me apetece ir ter com ela e rir do que acabou de acontecer. E ao contrário passa-se exactamente a mesma coisa. É a ironia de querermos tão bem a alguém tão próximo, não existe o socialmente correcto nem há espaço para meias medidas. Só a sinceridade, o caos, o amor. Tudo à flor da pele.