Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A vida de Sundays

A vida de Sundays

E depois do 12º, o que é que vem?

Há alturas na vida que sabemos que são determinantes e que vão definir aquilo que seremos no mundo e o nosso papel na sociedade. A escolha do curso e da respectiva universidade é, muito provavelmente, a mais importante de todas. Este verão é a vez da minha prima escolher o seu destino no que diz respeito a este assunto e, confesso, nutro por ela e pela situação em que se encontra um certo carinho compreensivo de quem conhece bem aquele turbilhão de sentimentos e angústias.

 

É muito bonito quando temos uma vocação, quando crescemos na certeza do que queremos fazer e, com orgulho, levamos a mão ao peito quando falamos na profissão que almejamos. Bonito, não é? Mas muito improvável. A verdade é que a maioria dos adolescentes e jovens, mais ou menos promissores (porque nem só de universidades se fazem bons profissionais e, sejamos realistas, nem todos estão vocacionados para isso), não têm noção daquilo que realmente querem fazer no futuro. Ou melhor, há sempre a vontade de ser isto ou aquilo, mas muitas vezes essa vontade é alimentada por um misto de influências dos meios de comunicação e uma vontade de conquistar o mundo. Lembro-me perfeitamente que, por volta dos meus 12 anos, jurava a pés juntos que o meu futuro passava por ser actriz. Aos 15, preferia ser psicóloga criminal, aos 17 já hesitava entre psicologia criminal e criminologia da pura. Só quando tive à minha frente o impresso para preencher com a lista de cursos que queria é que decidi escolher algo relacionado com aquilo que mais gosto de fazer: escrever, produzir conteúdos, comunicar, criar. Escolhi comunicação. Mas foi um impulso do momento, um bocadinho às cegas, apesar de saber que algures, dentro daquela área imensa, estaria aquilo que queria realmente fazer.

 

Parece-me que o grande problema é o facto de os jovens que terminam o secundário o fazerem sem a mínima noção do que é o lado prático de cada profissão. Sim, sabem que se são de ciências podem ser dentistas, cirurgiões ou químicos, profissões que conhecemos bem e das quais sabemos mais ou menos o que esperar... Mas então e os engenheiros agrónomos, os geólogos, os gestores financeiros ou administrativos? O que é que esta gente faz no dia-a-dia? Em conversa com a minha prima (e que não foi novidade nenhuma porque senti exactamente o mesmo) ela diz-me isto: "é que não sei o que é que se faz em cada profissão, na prática". Não sabes porque ninguém te explica. Porque o sistema escolar continua a insistir que uma série de testes que pedem para seleccionar as coisas que nos imaginamos ou gostamos de fazer, entre as quais estão opções tão variadas como "cantar" ou "tourear um touro" (juro que isto estava no teste psicotécnico, não me esqueço), é suficiente para decidir o nosso destino. Não é. É preciso mostrar o que acontece quando se mete "a mão na massa". Como é um dia de um jornalista, de um geólogo ou de um gestor, falar-lhes do horário de trabalho, das implicações. Explicar-lhes que ser jornalista não é só escrever, ser geólogo não é só fazer escavações e que os gestores não se limitam a fazer contas. Não é fácil, que não é, mas não é impossível. Duas horas por semana inseridas no plano curricular do 12º davam tempo para trazer oradores convidados de diferentes áreas, apresentar casos práticos e, quem sabe, visitar empresas e conhecer o contexto real de trabalho. Uma espécie de Kidzania para recém-adultos. Mais do que isso, fomentava a ambição, o querer conhecer e saber fazer. Talvez essa seja a chave para um país mais produtivo, de trabalhadores mais felizes e cidadãos realizados.